quarta-feira, 24 de abril de 2024

Estamos em guerra

Priscila Horta

Para fazermos uma primeira análise do tema que eu trouxe, selecionei o exemplo de um grupo de mulheres que se reúnem em Bangui, um país centro-africano para se cuidarem mutuamente.

Não precisamos ir longe quando buscamos essas histórias. Os grupos de mulheres estão organizados por toda parte. Mães que perderam ou têm filhos em condições especiais, mulheres violentadas, sob grande pressão social e tantas outras sobrecarregadas, se unem nesses grupos para que, dessa forma, possam compartilhar suas experiências, se verem em outros corpos e ajudarem umas às outras a superarem seus traumas.

Quem cuida da casa e da família enquanto os homens fazem guerra?

Certamente as esposas, mães e filhas desses mesmos homens.

“Em um quintal empoeirado nos arredores da capital da República Centro-Africana, Bangui, um grupo de mulheres se senta. Elas se reúnem toda semana para cuidar umas as outra e discutir seus problemas e conquistas. À frente do grupo está Florence Atanguere, uma viúva centro-africana.” Foto: © ACNUR/Adrienne Surprenant
Em um quintal empoeirado nos arredores da capital da República Centro-Africana, Bangui, um grupo de mulheres se senta. Elas se reúnem toda semana para cuidar umas as outra e discutir seus problemas e conquistas. À frente do grupo está Florence Atanguere, uma viúva centro-africana. Foto: © ACNUR/Adrienne Surprenant

A carga mental da mulher na sociedade moderna só se faz aumentar. Quando essa mulher precisa sair de casa e produzir trabalho externo para que financeiramente ela possa sustentar sua família, a carga horária de trabalho semanal segundo dados da revista Valor Econômico chega a ser 3,1 horas a mais em comparação à dos homens.

Se a guerra não nos atinge diretamente, ela dilacera nossos filhos, pais e maridos.

Façamos então, um exercício de distanciamento nesse momento. Qual o papel da mulher diante da guerra?

Sustentar, acolher, curar, rezar e enterrar corpos em um mundo que nunca esteve em paz.

 A escolha da guerra não é e nunca foi nossa, então por que temos tanto a ver com as consequências?

Chegamos no ponto chave da reflexão.

Quais as escolhas dentro da nossa sociedade levam em conta as consequências delas para a vida da mulher?

O anticoncepcional, a educação dos filhos, o cuidado com a casa, a emancipação para o trabalho e a participação política são consequências diretas das guerras na vida de uma mulher. Por mais que, temos a impressão de que estamos conquistando e avançando em sentido a independência e igualdade de gênero, o que me vem à cabeça é que: só damos os passos que nos é permitido, só avançamos onde os convém e finalmente, o único lugar em que realmente podemos exercer nossa força feminina é em grupos de mulheres organizadas. Não há outro caminho para nós se não o de: unidas, começarmos a definir nosso destino.

Os espaços femininos de discussão, acolhimento e ajuda mútua, esses sim, contribuem para que possamos avançar. O que for diferente disso é a guerra e suas consequências.

Estamos abrindo mais esse espaço para que juntas, avancemos.

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