quarta-feira, 17 de abril de 2024

Lideranças repudiam instalação de placas solares no lago de Três Marias

Temor é que projeto da Cemig interfira na pesca, nos esportes náuticos, na vida aquática e em toda a cadeia do turismo sustentável na região.

Lago de Três Marias. Foto: Vanessa Martins/Divulgação
Lago de Três Marias. Foto: Vanessa Martins/Divulgação

Moradores e lideranças de cidades às margens do Lago de Três Marias, na Região Central do Estado, repudiaram com veemência a proposta da Cemig de instalação de placas solares fotovoltaicas no espelho d’água da represa. Eles temem impacto sobre as diversas atividades desenvolvidas no local e reivindicam que a empresa instale as placas nas terras de sua propriedade, próximas à usina hidrelétrica.

O tema foi discutido na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG)  no dia 30/10/23, em audiência da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Representantes da Cemig negaram que o projeto vá gerar impactos e afirmaram que será garantido o uso múltiplo das águas, sob protestos dos participantes. Nova audiência deverá ser realizada em Três Marias.

Conforme projeto apresentado pela Cemig, a usina flutuante ocupará 55 hectares dos 106 mil ha do reservatório, gerando 78 megawatts. A área escolhida é logo em frente à usina da companhia, para otimizar a conexão. O diretor de Geração e Transmissão da Cemig, Thadeu Carneiro da Silva, descartou a implantação em terra, pois há limite legais que não existem para modalidade flutuante. Segundo ele, as placas estarão a dois quilômetros da prainha.

A empresa ainda listou os benefícios do projeto, como a produção de energia limpa, a geração de empregos e arrecadação para o município. Também o representante da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Pedro de Sena, enfatizou a importância da diversificação da matriz energética, como forma de se evitar o risco de racionamento ligado à seca. Ele ainda listou vários países que já têm usinas flutuantes.

Moradores e lideranças, que foram ouvidos antes da Cemig, deixaram claro que não querem o projeto. Muitos argumentaram que a região levou um tempo até se acostumar com o lago, depois de toda a inundação e a expulsão de pequenos produtores à época de sua construção. A usina, segundo eles, seria um novo trauma. “Quando falta informação, a população já está atingida”, destacou Fernanda de Oliveira Portes, do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Empreendedores temem fuga dos turistas

Representante do setor de Comércio e Turismo de Três Marias e ex-prefeito da cidade, Vicente de Paulo Resende destacou que o turismo na região envolve também a beleza cênica, que será prejudicada pelas placas flutuantes. “A usina sepulta o projeto turístico de Três Marias”, definiu. Esse projeto conta, por exemplo, com dois mil pescadores e centenas de empreendimentos, conforme enfatizou Cláudio Lúcio Pereira, radialista e morador de Três Marias.

Já o prefeito de Três Maria, Adair Divino da Siva, citou preocupação com o comportamento das placas em período de seca ou durante tempestades. A possibilidade de privatização da Cemig ainda foi mencionada como um possível complicador. Também o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirmou que a instalação de placas no espelho d’água pode ser estratégia para prejudicar a imagem da companhia e facilitar sua privatização.

O coordenador da Câmara Consultiva Regional do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, Altino Rodrigues Neto, ampliou a discussão e alertou para impactos no Velho Chico. “O rio não serve só a Três Marias. Ele serve a 20 milhões de pessoas. E a usina de Três Marias é a primeira de oito no rio”, afirmou. Para ele, é preciso que a Cemig dê garantias quanto aos impactos e à manutenção do uso múltiplo das águas.

Cemig foi questionada sobre a falta de diálogo com moradores e de estudos sobre os impactos da obra. Foto: Guilherme Dardanhan
Cemig foi questionada sobre a falta de diálogo com moradores e de estudos sobre os impactos da obra. Foto: Guilherme Dardanhan

Parlamentares apresentam projeto para vetar usina

Entre os encaminhamentos da audiência, a deputada Beatriz Cerqueira (PT), que solicitou o debate, e o deputado Professor Cleiton (PV) protocolaram projeto de lei proibindo a instalação das placas fotovoltaicas flutuantes no lago de Três Marias. “A população não quer a obra. A Cemig vai impô-la?”, indagou a deputada, que fez ainda vários outros questionamentos à Cemig, inclusive sobre a falta de diálogo com os moradores da região.

Professor Cleiton também fez pontuações quanto à redução do nível de evaporação e aos impactos sobre a vida aquática. Para ele, o projeto é mais um fruto do “lobbysmo” que impera na Cemig. O deputado ainda citou projeto em parceria com a deputada Lohanna (PV) que busca proteger todos os lagos com mais de seis hectares em Minas. Entre as proibições, está, justamente, a de instalação de usinas flutuantes.

Já o deputado Tito Torres (PSD), presidente da comissão, reconheceu a disposição da Cemig em participar dos debates, mas também cobrou da companhia um melhor atendimento à população, após vários moradores apontarem falhas no atendimento.

Em Cláudio
A Cemig teria um projeto para instalação de placas fotovoltaicas na região do Lago chamado de Novo Mar de Minas, no município de Cláudio (Centro-Oeste), mas isso prejudicaria turismo, geração de emprego e renda no local, além de alterar a biodiversidade do lago, segundo denúncias de moradores de Divinópolis ao deputado Professor Cleiton (PV).

A requerimento do parlamentar, a Comissão Extraordinária de Turismo e Gastronomia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou audiência pública na última terça-feira (12/12), no Plenarinho II da Assembleia, para discutir o assunto.

“Queremos ouvir os representantes do munícipio, colher dados mais concretos, números sobre os prejuízos que seriam causados pelas placas. Sabemos que há até um impacto ambiental no lago”, diz o deputado, que também é autor da Emenda à Constituição 106, que trata da preservação de lagos mineiros de Furnas e Peixoto.

Segundo ele, os moradores temem o fim do potencial turístico da região, com perda de potencial econômico e de geração de empregos no entorno, caso as placas sejam mesmo instaladas.

Com Assessoria da Assembleia Legislativa de MG

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