domingo, 23 de junho de 2024

Zagallo foi um dos mais inovadores técnicos do mundo, dentro e fora de campo | por Chico Maia

Zagallo foi um dos maiores exemplos de superação e volta por cima no futebol

Foto: CBF

O “velho Lobo” se foi ontem, aos 92 anos de idade. A vida dele era o futebol e a família. Durante muitos anos teve grande ligação com Belo Horizonte, trazendo o filho para tratar da visão, no Instituto Hilton Rocha, então referência no assunto na América do Sul.
Era uma pessoa simples, gentil, apesar de passar imagem diferente nas entrevistas, quando os embates com a imprensa exigiam. Não fugia dos debates, era duro nas respostas e questionamentos, porém, terminada a conversa ou a “briga”, voltava a tratar o debatedor de forma elegante. Na Copa de 1994, como coordenador técnico, foi fundamental para que o Carlos Alberto Parreira tocasse a seleção com tranquilidade dentro dos gramados, pois fora, ele cuidava de enfrentar a imprensa e resolver outros problemas, muitos. Parecia que ia sair na porrada com alguns colegas jornalistas e radialistas em determinados momentos, principalmente com os paulistas, que pegavam mais no pé das escalações do Parreira e o trabalho da CBF. Momentos depois, a mesma cordialidade com todos.
Tive o privilégio de ser colega de trabalho do Tostão, na Band, no Minas Esporte, nos anos 1990. Antes ou depois do programa, eu matava todas as curiosidades que tinha sobre os bastidores do futebol, principalmente sobre alguns ícones da história com quem o Tostão conviveu, em especial na Copa de 1970, no México. O grande ex-craque contava que Zagallo foi o técnico mais inovador que ele teve até então, tanto nas táticas, quanto nos treinamentos e até na forma de tratar os jogadores de futebol. Modernizou, democratizou, abriu o diálogo entre comandantes e comandados. Era da tese de que os melhores tinham que estar entre os 11 titulares, mesmo se tivesse que improvisar. E assim, transformou Piazza em zagueiro na Copa, adaptou o próprio Tostão para jogar com Pelé e inventou o “falso” ponta, com Rivelino jogando pela esquerda.

Zagallo com Ronaldo durante a Copa da França em 1998. Foto: cbf.com.br

Pessoalmente, tive mais contato com o Zagallo durante a Copa da Itália, em 1990, em que ele foi como comentarista da Rede Manchete. Participava de todas as “resenhas” conosco, repórteres e comentaristas, de quase todas as incontáveis festas e recepções que o comitê organizador da Copa e cidades sedes organizavam. Era tido por muitos como aposentado como técnico de futebol, já que tinha comandado a seleção brasileira pela última vez na Copa de 1974 e depois passou por vários clubes, até ser convidado pela Manchete (hoje Rede TV) para ser comentarista.

Mas, com a chegada do Ricardo Teixeira à presidência da CBF, ele voltou com tudo ao poder. O sogro e mentor do Teixeira, João Havelange, então presidente da FIFA, era fã do “Velho Lobo”. Tinha sido presidente da CBD (atual CBF), e confiou a ele a missão de substituir João Saldanha às vésperas da Copa do México de 1970, em momento delicadíssimo do país, que vivia o auge do regime militar. Depois do fracasso do Sebastião Lazaroni na Copa da Itália, Ricardo Teixeira chamou para a Copa seguinte, dos Estados Unidos, a dupla Zagallo/Parreira, do tri de 1970. E aquele “aposentado” de 1990 dava as cartas novamente, agora como coordenador, da seleção que viria a conquistar o tetra em 1994.
Em 1998 foi o treinador na Copa da França, que perdeu a final para os donos da casa. Com a derrota, parecia que tinha chegado o fim da trajetória dele na seleção. Ledo engano. Em 2006, lá estava dele como coordenador novamente, integrando a comissão do Carlos Alberto Parreira, na Copa da Alemanha. Porém, com a saúde debilitada, fora de combate. Certamente, se estivesse inteiro, desempenharia o mesmo papel de 1994 e não deixaria o ambiente da seleção se tornar aquela zona que foi, fora de campo, na preparação na Suíça e durante o Mundial.
Descanse em paz, Velho Lobo! O futebol agradece a sua dedicação e competência.